domingo, 21 de janeiro de 2018

Eutanásia não é liberdade


Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 29 de Dezembro de 2017

O debate está enviesado à partida. Diz-se que é sobre a liberdade e a falta dela. É assim que nos é apresentado: a liberdade de decidir o nosso destino em situações que se consideram extremas e a falta dessa liberdade. De facto, parece absurdo não nos deixarem sermos donos e senhores da nossa própria vida quando estamos em sofrimento extremo, quando é apenas uma questão de tempo, quando temos a certeza que o nosso sofrimento é também um fardo para os que nos são mais queridos. Quem é o Estado, quem são os legisladores para nos proibirem de anteciparmos a nossa própria morte quando queremos acabar com a dor, quem lhes delegou tamanha autoridade? Visto deste ângulo, parece realmente absurdo ser contra a eutanásia, apresentada a causa com tão bons propósitos e alicerçada num princípio tão nobre como seja o da liberdade contra o flagelo da dor, da doença, da decadência. É assim que a questão é apresentada. E assim tudo parece simples. Quem não acredita que é Deus o dono das nossas vidas, não tem dúvida: sim à liberdade. E mesmo muitos dos que acreditam desconfiam que Ele não se iria importar nada de ver alguém a acabar com o seu próprio sofrimento.

Ora, são estes os dois grandes equívocos deste debate: que é religioso e que é sobre a liberdade. Mas o verdadeiro debate não é sobre uma coisa nem outra: é sobre a vida. E a vida em todas as suas dimensões humanas, terrenas e palpáveis. É sobre o que é o sofrimento e quem julga o que é insuportável, a partir de quando se desiste? É sobre a responsabilidade de todos nós em atenuar o sofrimento sem ter de se matar, sobre o discernimento, o juízo, a motivação de quem diz chega, quero morrer. É sobre a nossa responsabilidade sobre a vida dos nossos.

A liberdade é o esconderijo acolhedor deste debate. Mas é perigoso. Em nome dela há países onde a eutanásia é aplicada às crianças, aos que padecem de «sofrimento psicológico», aos esquizofrénicos, aos doentes ou idosos que não querem ser um fardo, aos doentes com depressões. O erro nesses países foi não perceber que o debate é sobre a vida e a morte, e não sobre a liberdade. É sobre onde se traça a linha e sobre a responsabilidade do Estado em proteger quem sofre e não acabar com a vida de quem sofre. A liberdade é a grande mentira deste debate: quem sofre, quem está doente e a morrer não está livre, está refém do amor do próximo. O debate sobre a eutanásia é difícil porque é sobre a nossa responsabilidade em garantir que nunca ninguém queira morrer porque não ajudámos a viver. É sobre viver com dignidade e não morrer por indignidade.





Mais de dez mil crianças do ensino privado não têm acesso ao cheque-dentista



Carla Sofia Luz, Jornal de Notícias, 4 de Janeiro de 2018

Apesar do carácter universal deste benefício, a Entidade Reguladora da Saúde indica que há falta de equidade no acesso aos cuidados de saúde, mesmo nos casos em que as crianças e jovens sejam carenciados e possuam bolsa de estudo.

A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) alerta que mais de dez mil crianças estão a ser excluídas do programa cheque-dentista por frequentarem escolas privadas. A alegada falta de equidade no acesso aos cuidados de saúde existe mesmo nos casos em que as crianças e jovens sejam carenciados e possuam bolsas para frequentar os colégios, avança o «Jornal de Notícias».

«Há uma discriminação inaceitável de quem faz a sua opção pelo ensino particular», afirma o director da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, Rodrigo Queiroz e Melo, lembrando que das dez mil crianças sem acesso ao cheque-dentista, cerca de mil têm dificuldades económicas.

Apesar do carácter universal deste benefício, o Ministério da Saúde explica ao «JN» que tem vindo a privilegiar as crianças das escolas públicas e das instituições particulares de solidariedade social (IPSS) por serem «os casos mais vulneráveis e com mais impacto clínico».

Em 2017, foram realizadas mais de 71 mil consultas de medicina dentária nos centros de saúde, beneficiando cerca de 40 mil crianças e jovens.





segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Butler em recuo estratégico

No caso, a ideologia de género não nos quer apenas privar da identidade,
mas também da liberdade e da verdade.
De facto, se ninguém é alguém, como pode ter direitos?

Pe. José Eduardo de Oliveira e Silva, SempreFamília, 24/11/2017

«Escrevi estas notas por ocasião da leitura do artigo de Judith Butler na Folha de São Paulo em 20 de Novembro de 2017, numa breve meditação filosófica. O texto é maior que as postagens habituais, mas penso que valha a pena a sua leitura atenta e com reflexão»

I. RECUO ESTRATÉGICO

Professora do departamento de retórica e literatura comparada da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e directora do Consórcio Internacional de Teoria Crítica, não é de se admirar que Judith Butler remodele o seu discurso para torná-lo mais agradável ao ouvido sensível dos brasileiros, sobretudo após a onda de protestos causados por a sua última vinda ao Brasil.

«Um passo em frente, dois para trás». Este é o título do livro que Vladimir Lénin publicou em 1904, e que, de certo modo, marcou sempre o modus procedendi de toda a esquerda quando pretende avançar por cima dos obstáculos.

Quando Fidel Castro assumiu o poder em Cuba em nome da democracia e contra a ditadura baptistiana, em seguida, implantou a sua ditadura. Hugo Chávez fez a mesma coisa, apresentou um discurso democrático para, na sequência, impor o seu totalitarismo.

Até mesmo o ex-presidente Lula fez isso. Quando tentava eleger-se, nos anos 90, era rechaçado pela população. Então, com o auxílio do marqueteiro Duda Mendonça, repaginou-se, dando à luz o «Lulinha paz e amor», que o elevou à Presidência da República em 2002.

Agora, Butler segue a mesma estratégia. Reapresenta a sua teoria em recortes mais essencialistas e até moralistas, para fazê-la avançar.

II. A TEORIA DE GÉNERO BUTLERIANA

Apesar de aliviar as tintas no seu texto, qualquer pessoa que tenha tido um contacto com a teoria de género sabe que esta transcende em muito o objectivo de atender os indivíduos que não correspondem às expectativas relativas ao seu género (segundo o artigo de Butler, «ao género atribuído no nascimento»).

Como ela mesma afirma, «o meu trabalho consiste em delinear a última etapa da batalha filosófica contra a vida do impulso, o esforço filosófico de domesticar o desejo como uma instância de lugar metafísico, a luta por aceitar o desejo como princípio de deslocamento metafísico e dissonância psíquica e o esforço orientado por deslocar o desejo com o fim de derrotar a metafísica da identidade» (Subjects of desire, p. 15).

Obviamente, para ela, como o desejo não se realiza de acordo com um sujeito que lhe dê suporte, o «eu» seria apenas um discurso. Não haveria um ser por detrás do desempenho do género. Seriam estes desempenhos, estas acções, que constituiriam a ficção do sujeito, pois esta ficção seria requerida pelo discurso que nós herdamos da metafísica da substância, discurso que, segundo ela, precisamos superar (Problemas de género, p. 56).

Masculinidade e feminilidade, portanto, para ela, são acções desligadas da biologia. Afirma, inclusive, que «a ‘presença’ das assim chamadas convenções heterossexuais nos contextos homossexuais, bem como a proliferação de discursos especificamente gays da diferença sexual, como no caso de buth (a lésbica masculinizada) e femme (a lésbica feminilizada) como identidades históricas de estilo sexual, não pode ser explicada como representação quimérica de identidades originalmente heterossexuais. E tampouco elas podem ser compreendidas como a insistência perniciosa de construtos heterossexistas na sexualidade e na identidade gays. A repetição de construtos heterossexuais nas culturas sexuais gay e hétero bem pode representar o lugar inevitável de desnaturalização das categorias de género» (Problemas de género, p. 66).

Ademais, em diálogo com Witting, ela afirma que «a tarefa das mulheres é assumir a posição do sujeito falante autorizado e derrubar tanto a categoria de sexo como o sistema da heterossexualidade compulsória que está na sua origem. Para ela, a linguagem é o conjunto de actos, repetidos ao longo do tempo, que produzem efeitos de realidade que acabam sendo percebidos como ‘factos’. Considerada colectivamente, a prática repetida de nomear a diferença sexual criou esta aparência de divisão natural. A ‘nomeação’ do sexo é um acto de dominação e coerção, um acto performativo, institucionalizado que cria e legisla a realidade social pela exigência de uma construção discursiva/perceptiva dos corpos, segundo os princípios da diferença sexual» (Problemas de género, p. 200).

Diante disso, soa completamente a retórica e maquiada a seguinte pergunta de Butler no seu artigo da Folha: «O livro (Problemas de género) negou a existência de uma diferença natural entre os sexos? De maneira alguma, embora destaque a existência de paradigmas científicos divergentes para determinar as diferenças entre os sexos e observe que alguns corpos possuem atributos mistos que dificultam a sua classificação».

Então, Butler admite que existe a possibilidade de uma classificação objectiva, baseada na diferença biológica dos corpos? Obviamente, trata-se, aqui, de uma ginástica retórica para desorientar os menos informados na sua teoria.

III. IDEOLOGIA? SIM.

Segundo Butler, «em geral, uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto ilusório quanto dogmático, algo que ‘tomou conta’ do pensamento das pessoas de uma maneira acrítica. Meu ponto de vista, entretanto, é crítico, pois questiona o tipo de premissa que as pessoas adoptam como certas no seu quotidiano» (artigo para a Folha).

O conceito de género é crítico apenas no sentido da «teoria crítica», quer dizer, enquanto instrumento para criticar a realidade inteira, como ela mesma reconhece neste seu texto.

Contudo, como de praxe na teoria crítica, deve-se criticar tudo, menos a metodologia crítica ou os seus instrumentos metodológicos críticos como, no caso, o conceito de género.

Ela mesma afirma que «se a noção estável de género dá mostras de não mais servir como premissa básica da política feminista, talvez um novo tipo de política feminista seja agora desejável para contestar as próprias reificações do género e da identidade – isto é, uma política feminista que tome a construção variável da identidade como um PRÉ-REQUISITO METODOLÓGICO E NORMATIVO, senão como um OBJECTIVO POLÍTICO» (Problemas de género, p. 25).

Em outras palavras, a noção de género como identidade variável deve ser uma PREMISSA, aliás, a qual ela não procura demonstrar, antes, apenas apresenta de modo dogmático. A práxis da militância de género, ademais, sempre foi a de fazer com que a teoria de género «tomasse de conta» da sociedade inteira sem que ninguém se desse conta disso, portanto, de modo acrítico.

Aliás, por que fazem tanta questão de ensinar género para as criancinhas? Será que não é justamente porque as mesmas não têm suficientemente desenvolvida a sua capacidade crítica?

Portanto, segundo as próprias determinações de Butler, a sua teoria de género cabe muito bem nos limites daquilo que ela entende por uma ideologia.

Não, quem criou a ideologia de género não foi Joseph Ratzinger nem muito menos Jorge Scala. O «pai» da «criança» é a Judith Butler, mesmo!

IV. ESSENCIALISMO E A FALÁCIA DA ARQUEOLOGIA FOUCAULTIANA

Segundo Butler, «a noção de paródia de género aqui definida não presume a existência de um original que estas identidades parodísticas imitem (ela está a falar da própria identidade de género…) Este deslocamento perpétuo constitui uma fluidez de identidades que sugere uma abertura à ressignificação e à recontextualização; a proliferação parodística priva a cultura hegemónica e seus críticos da reinvindicação de identidades de género naturalizadas ou essencializadas» (Problemas de género, p. 238).

Servindo-se da metodologia própria da teoria crítica, Butler cria uma caricatura discursiva e começa a desconstruí-la, como se estivesse desconstruindo a realidade. Na verdade, ela está tão absorvida por o seu próprio discurso que crê firmemente nele, substituindo a realidade por ele.

Deste modo, atribui a homem e mulher, termos que aparecem para ela sempre entre aspas, status de identidade essencialista, naturalista, sexista, binária, heterossexista, heteronormativa, fálica, reificada etc.

Para comprovar a ficção da identidade, ela analisa os discursos sobre o masculino e o feminino como se os mesmos fossem o homem e a mulher em si.

Aqui, ela é epistemologicamente dependente da metodologia de Foucault, o qual, partindo do pressuposto que a verdade não existe, passa a rastrear a história das «verdades» para demonstrar que as mesmas são apenas a projecção de um determinado poder regulador. Isto é aquilo que ele chama de arqueologia do saber.

Ora, se quiséssemos, por exemplo, fazer a arqueologia da ideia da «lei da gravidade», obteríamos uma infinidade de discursos contraditórios e facilmente chegaríamos à conclusão de que a «teoria da gravidade não existe, é apenas um discurso de poder». No entanto, se se jogar da janela, de qualquer modo, com ou sem Foucault, vai-se espatifar da mesma maneira!

Em outras palavras, estamos diante de um jogo de palavras, de um embaralhamento de discursos, daquilo que a filosofia chama de falácia. A realidade continua intocada, apenas se dribla o interlocutor com um lance desconstrucionista. É aquilo que no futebol se chama de pedalada.

Como é possível que este tipo de artifício possa convencer alguém? Bem… Como ensinou Aristóteles (tanto nos Analíticos quanto no Peri hermeneias), não é fácil conhecer a essência das coisas. Precisamos proceder a um processo abstrativo complexo, que supõe um trabalho mental consideravelmente sofisticado. A história dos discursos pode ser a história dos bem ou mal sucedidos, e dos mal ou bem intencionados, esforços por alcançar a quididade, a essência das coisas reais. Por isso, o método foucaultiano é sofístico e pode enganar.

V. SOFISTAS DE GÉNERO

Butler é adepta da subversão da identidade através de actos corporais subversivos, típicos do movimento queer, quer dizer, a actuação de desempenhos revolucionários que choquem aquilo que ela chama de heteronormatividade.

Outra autora americana de género, Joan Scott, é mais ortodoxa, do ponto de vista foucaultiano: ela pretende reescrever a história a partir da noção de género (Gender and the politics of history, Nova York, 1999).

Estas são as duas autoras principais. Digamos, as mais representativas dos estudos de género.

Contudo, existem mais de 40 teorias diferentes de género, todas em disputa entre si. São modos diferentes de apresentar a mesma ideia, a saber: o género é um construto desligado da identidade sexual, vale dizer, biológica.

Este também é um expediente da teoria crítica: colocar um grupo imenso de pessoas para criticar implacavelmente a realidade, metralhando-a em todos os sentidos possíveis, sem necessariamente se preocupar em justificar a própria crítica.

Uma pessoa que quiser encarar toda a aguarela dos estudos de género poderá gastar toda a vida apenas ocupando-se de entender as picuinhas intelectuais que os diferentes activistas nutrem dialecticamente entre si. Decerto ficará perdido neste labirinto sem saída e, completamente intoxicado de informações contraditórias, acabará por adoptar uma entre elas, trocando a realidade pelo discurso.

Isto também aconteceu nos tempos de Sócrates (cf. Platão, O Sofista). Os sofistas eram retóricos pagos pelos políticos da época para convencerem o povo das ideias destes últimos. Destruíam a mesma base do saber, negando a existência do ser e da verdade, e submetiam o povo às suas opiniões. Sócrates aguentou-os, pagou o preço da sua vida por isso, mas ao fim e ao cabo, desapareceram os sofistas e prevaleceu a verdadeira filosofia.

Hoje, os críticos, os desconstrucionistas, os ideólogos de género são os novos sofistas, pagos pelas fundações internacionais para convencerem o povo de que não existe a verdade, o ser, a essência, e imporem o seu totalitarismo disfarçado de democracia.

Com efeito, Judith Butler veio ao Brasil financiada pela Fundação Mellon para falar de democracia em nome do Consórcio Internacional de Teoria Crítica, fundado no final do ano passado com uma verba doada pela mesma Fundação de 1,5 milhões de dólares (vide o site do próprio Consórcio).

Submetam os ideólogos de género à arqueologia das suas ideias e à genealogia dos poderes que estão por trás deles, rastreiem a rota do dinheiro e verão que isso nada tem de amor desinteressado à humanidade.

VI. PEDOFILIA

Butler alega que a Igreja está por trás da estigmatização social da sua teoria de género e defende-se da acusação de corruptora de crianças acusando a Igreja católica de ter perdido a sua autoridade moral por proteger pedófilos no seu seio.

generalização precipitada é um tipo de falácia de que abusam estes ideólogos na sua aversão ao catolicismo. É verdade que alguns delinquentes se esconderam na Igreja e que houve quem se omitisse na sua acusação, mas a Igreja puniu-os severissimamente e, sobretudo, nunca os respaldou, justificando doutrinalmente o seu desvio de conduta.

Ao contrário, o movimento feminista tem expoentes que defenderam abertamente o sexo com menores, e este não é um privilégio de Shulamith Firestone (The dialetic of sex, p. 215). Há quem queira despatologizar a pedofilia ou transformá-la numa opção sexual respeitável.

Butler apela para a teoria da projecção, sugerindo que os que a acusam de favorecer a pedofilia estão apenas a lançar sobre ela o próprio vexame. Na verdade, a generalização precipitada é uma falácia em qualquer direcção que se a aplique e o uso deste tipo de sofisma apenas demonstra malícia ou despreparo filosófico.

VII. FILOSOFIA, VERDADE E DEMOCRACIA

Algumas pessoas que trabalham com comunicação vieram queixar-se de que os protestos contra a  vinda de Butler ao Brasil apenas a projectaram ainda mais.

Tenho a impressão de que isso, do ponto de vista filosófico, não é necessariamente assim. Quero dizer apenas que os ideólogos sempre se favoreceram do anonimato e da difusão de ideias não conferidas, exactamente como Butler diz no seu artigo.

Quem coloca a questão nestes termos assume sem percebê-lo a premissa de que a verdade e o erro são equivalentes. Acontece que a força do erro está na hegemonia. Por isso, eles necessitam impô-la para todo o mundo. Mas a força da verdade está nela mesma!

Hoje, a verdade precisa mais de homens com uma verdadeira mente filosófica do que da propaganda, é ela que gera os propagandistas, os comunicadores, a cultura e tudo o mais. Foi sobre estes cânones que se erigiu a Civilização ocidental e é contra eles que estes bárbaros a estão destruindo.

Uma democracia que se propusesse como alternativa à verdade, caricaturizando-a como autoritarismo, apenas seria uma ditadura disfarçada, a imposição de uma hegemonia.

Notem que a própria Butler defende a identidade das suas ideias e protesta contra falsificações. E com razão. Contudo, fá-lo apenas em benefício da sua crítica, sem se submeter a uma autocrítica.

Como afirma Butler no seu artigo na Folha, «liberdade não é – nunca é – a liberdade de fazer o mal. Se uma acção faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa acção não pode ser qualificada como livre – ela torna-se uma acção lesiva».

No caso, a ideologia de género não nos quer apenas privar da identidade, mas também da liberdade e da verdade. De facto, se ninguém é alguém, como pode ter direitos?





A coadopção da Teresinha



Isilda Pegado

1 – A Teresinha tinha 6 anos quando a mãe, vítima de cancro da mama, faleceu. Desde um ano de idade que vivia com a mãe, perto dos avós e dos tios maternos. Foram estes a passar mais tempo com ela, durante a doença da mãe. Acima de tudo os primos... de quem tanto gostava, e com quem brincava longas horas…

2 – Durante estes 5 anos teve sempre um relacionamento saudável com o pai. O facto de o pai viver com um companheiro, o Jorge, nunca foi motivo de comentário. Contudo, desde os tempos do divórcio, o pai e os avós maternos ficaram de relações cortadas.

Após o óbito da mãe, a Teresinha foi viver com o pai, e com o Jorge.

3 – Os avós maternos receberam então uma notificação para comparecer em Tribunal onde lhes foi comunicado que a sua «neta» tinha sido coadoptada pelo companheiro do pai, pelo que deixava de ser sua neta. Foi-lhes explicado que por efeito da coadopção os vínculos de filiação biológica cessam.

É o regime legal aplicável (art. 1986.º do C.C. – «Pela adopção plena, extinguem-se as relações familiares entre o adoptado e os seus ascendentes e colaterais naturais.»).

Nada podiam fazer. Choraram amargamente a perca desta neta (depois da filha) que definitivamente deixariam de ver e acompanhar.

A Teresinha, que tinha perdido a mãe, perdia também os avós, os tios e os primos de quem tanto gostava. Nunca mais pôde brincar com aqueles primos ou fazer viagens com o tio Zé e a tia Sandra que eram tão divertidos. A Teresinha tinha muitas saudades daquelas pessoas que nunca mais vira.

Não percebia porque desapareceu do seu nome o apelido «Passos» (art. 1988.º n.º 1 — «O adoptado perde os seus apelidos de origem»).

4 – Um dia perguntou ao pai porque mudara de nome. Foi-lhe dito que agora tinha outra família. Não percebeu e, calou… Na escola, via que os outros meninos tinham uma mãe e um pai, mas ela não.

5 – Quando chegou aos 16 anos de idade foi ao ginecologista, sozinha. Ficou muito embaraçada com as perguntas que lhe foram feitas sobre os seus antecedentes hereditários maternos. Nada sabia. Percebeu que o médico não a podia ajudar na prevenção de varias doenças... Estava confusa. Nada sabia da mãe. Teria morrido? Teria abandonado a filha?

6 – Até que um dia descobriu em casa, na gaveta de uma cómoda, um conjunto de papéis em cuja primeira página tinha escrito SENTENÇA. E leu... que «o superior interesse da criança» impunha a adopção da menor pelo companheiro do pai, cessando de imediato os vínculos familiares biológicos maternos, nos termos do disposto no art. 1.986.º do C.C., tal como o apelido materno (Passos) (art. 1988.º n.º1 do C.C.) que era agora substituído por... Tudo por remissão dos art.s X.º a Y.º da Lei Z/2013.

7 – O que mais a impressionara naquele escrito foi o facto de que quem a escrevia parecia estar contrariado com a decisão que estava a tomar. E, a dado passo escrevia «Na verdade, quando da discussão da lei Z/2013 na Assembleia da República o Conselho Superior da Magistratura e a Ordem dos Advogados emitiram parecer desfavorável à solução legislativa que agora se aplica. Porém, «Dura lex sede lex». A Teresinha não percebeu...

8 – Durante anos procurou a Família materna, em vão... Mas rapidamente consultou os Diários da Assembleia da República onde constavam os nomes dos deputados que tinham aprovado aquela lei que lhe tinha roubado os mimos da avó Rosa, as brincadeiras do avô Joaquim... e os primos.

A Teresinha queria voltar ao tempo destes, que são sangue do seu sangue, mas não pode porque esses anos foram-lhe usurpados. Vive numa busca incessante pela sua identidade. Se as outras raparigas da sua idade sabem das doenças que a mãe e o pai tiveram, porque é que ela não pode saber? Porque lhe negam esse direito?

9 – Leu então num livro que «a adopção é uma generosa forma de ajudar crianças a quem faltam os pais e a família natural para lhes dar um projecto de vida. A adopção é sempre subsidiária».

E perguntou — Onde está a minha família que nunca me faltou mas, de mim foi afastada por estatuição legal e decisão judicial?

A Teresa está muito triste.

10 – O pai e o Jorge entretanto divorciaram-se… e a Teresa é obrigada a ir passar os fins-de-semana a casa do Jorge… porque a Regulação das Responsabilidades Parentais assim o ditou.

11 – Teresinha, nós estamos aqui!





quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Sexo, drogas e noitadas: sabe o que anda a fazer o seu filho adolescente?


«Antigamente não havia discussões sobre sexo e drogas, hoje cada vez temos mais!
A inocência hoje é uma coisa diferente!» Francisco Fernandez, actor, 19 anos.

Fotografia Gustavo Bom

Rui Pedro Tendinha, NotíciasMagazine, 22 de Novembro de 2017

O Fim da Inocência conta a história, baseada em factos reais, de um grupo de adolescentes que experimenta na noite tudo o que os pais mais temem. A adaptação ao cinema do livro de Francisco Salgueiro – o último projecto de Nicolau Breyner mas que acabou por ser realizado por Joaquim Leitão – chega esta semana às salas e consegue mostrar o que muitos nem querem imaginar: uma vida paralela de sexo casual e consumo de drogas nas noitadas.

O que é que os adolescentes de boas famílias fazem na noite a partir das três, quatro da manhã? Muitos pais preferem nem imaginar. Mas, em O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, a adaptação do romance homónimo de Francisco Salgueiro, vemos um caso que pode fazer incidir a luz sobre o flagelo que atinge cada vez mais jovens.

Fotografia Gustavo Bom

O filme e o livro (talvez mais o livro) mostram explicitamente como raparigas e rapazes de colégio entram numa espiral de sexo, álcool e drogas sem os pais saberem. Tudo isto logo a partir dos 15 ou 16 anos.

E, segundo o autor, tudo é verdade: as festas, as orgias, as pastilhas, os riscos de cocaína e uma dissimulação que engana os pais mais distraídos. O livro [ed. Oficina do Livro, 2010] e, por consequência, o filme, relatam factos verdadeiros de uma adolescente que, depois de ser levada a perder a virgindade aos 15 anos, adopta um estilo de vida noctívago repleto de drogas e álcool.

Espelho de uma certa geração com pressa de experimentar tudo mais cedo e com ganas de viver a vida sem pensar no amanhã. Os jovens que não pensam nas consequências e encontramos nos bares de Santos, em Lisboa, ou nas Galerias da Baixa do Porto e que, depois, acabam por ser os mais populares no liceu.

Se esta história que Salgueiro descobriu pode ser um testemunho de uma tendência cada vez mais globalizante, é também uma oportunidade para um exame de como muitos pais podiam – deviam? – ter outra percepção acerca da vida social dos filhos.

Fim da Inocência chega aos cinemas numa altura em que o cinema de grande público em Portugal tem tido tempos duros, com fracassos atrás de fracassos. Mas o novo filme de Joaquim Leitão (que este ano já viu no final de Agosto o seu Índice Médio de Felicidade ser ignorado nas bilheteiras) terá um dos maiores lançamentos do ano e uma campanha forte para chamar adolescentes e pais aos cinemas, sobretudo a pensar no fenómeno que o livro conseguiu – mais de quarenta mil exemplares.

«Este é o primeiro filme português que atinge um target que não vê filmes portugueses», diz o autor.

Trata-se de um relato de um grupo de adolescentes abastados de Cascais que reflecte uma vida paralela de comportamentos sexuais irresponsáveis, dependência de álcool e droga sem controlo – muito para além dos charros, neste filme circula MDMA, cocaína e ectasy.

Fotografia Gustavo Bom

Francisco Salgueiro, sem filhos, especialista em livros destinados a jovens, supervisionou a produção do filme.

«Este é o primeiro filme português que atinge um target que não vê filmes portugueses», diz o autor. «O Fim da Inocência é para quem não gosta mesmo de cinema português, o mesmo que aconteceu com o livro, que era para um target dos que nunca liam. Os autores e os realizadores portugueses têm a mania de ser muito mais velhos do que aquilo que são.»

O escritor de 45 anos não foi o responsável pelo argumento (Roberto Pereira, de A Mãe é que Sabe foi o escolhido), mas teve um papel activo no casting, cuja primeira fase contou ainda com Nicolau Breyner, que esteve para realizar o filme. O Fim da Inocência foi a obra que a morte não deixou que fosse de Nico.

«Há aquele lema agora de que o pessoal quer fazer tudo num só dia, não deixar nada para amanhã», diz Francisco Fernandez, com 19 anos.

Oksana Tkash, Rodrigo Paganelli, Joana Barradas, Francisco Fernandez, Raquel Franco e Joana Aguiar são estrelas para um público juvenil depois de participações televisivas em séries e telenovelas. Ficaram famosos sobretudo nesta altura em que as redes sociais e as suas gestões criam casos de culto que passam ao lado da imprensa. Para já, têm uma habilidade tremenda: na câmara de Leitão parecem mesmo adolescentes (Raquel tem 26 anos, Joana e Francisco 19).

Fotografia Gustavo Bom

Juntos, estes actores mostram um entrosamento grande. A maior parte já se conhecia de trabalhos na televisão e conseguiram uma boa química durante as filmagens, em Agosto. Garantem que nunca se portaram como as personagens em perdição deste caso verídico, mas são os primeiros a dizer que nada do que se passa aqui é fantasia. «Há aquele lema agora de que o pessoal quer fazer tudo num só dia, não deixar nada para amanhã», diz Francisco Fernandez, com 19 anos, o mais novo dos rapazes, mas a opinião é partilhada por todos.

Raquel Aguiar, 26 anos, comunga dessa ideia de que a geração que veio a seguir à sua quer tudo mais rápido. «As situações que vemos no filme existem e há que falar e expô-las, mesmo que não possamos generalizar. Existe e não é só no Porto e em Lisboa. Trata-se de um fenómeno generalizado.» Um fenómeno que os pais desses adolescentes nem imaginam. Ou não querem, lembra Francisco Salgueiro.

É como se houvesse um desígnio comum de hedonismo automático,
de querer pisar os limites ou querer seguir uma moda de mau comportamento. E não deixa de ser curioso o filme chegar na altura em que se discute também o problema da segurança na noite com o caso da discoteca Urban Beach.

Rodrigo Paganelli, que interpreta um dos «maus rapazes» disposto a experimentar tudo, fala da pressão de uma sexualidade imposta. «O filme trata muito bem da pressão de ter de fazer muito mais do que a vontade deles. Todos falam de sexo e se não tiveres assunto aí sentes-te fora das conversas. Há uma obrigação cada vez mais cedo e não acho normal miúdos e miúdas de doze anos perderem a virgindade. Não me cabe na cabeça!»

O grande risco deste elenco estará, eventualmente, na protagonista, Oksan Tksah, uma jovem de 20 anos de origem ucraniana descoberta no mundo da moda. De todos, é quem tem menos experiência e consegue dar vida à Inês, a rapariga inocente arrastada para uma vertigem de sexo e drogas ainda antes dos 16 anos.

«Cresci no Alentejo e a dada altura tive de cuidar sozinha do meu irmão. Nunca estive perto desse mundo que o filme mostra. Não tenho mesmo nada a ver com a Inês nem nunca saí muito à noite. Quando me vi no trailer pela primeira vez apanhei um choque! Tenho receio de como as pessoas me vão julgar como actriz.»

Fotografia Gustavo Bom

Oksana nem sequer sabe se quer voltar a representar, agora que está a tirar Ciências Políticas na Universidade Católica. E tem também uma inquietação: «vejo o meu irmão, que agora tem dez anos, e fico espantada como as crianças têm acesso a tudo com uma velocidade enorme. Aliás, ao longo do filme percebi que sou superconservadora!»

O que Francisco Salgueiro descreve não se trata apenas de um pesadelo de uma certa camada social. Estes jovens podem ser betinhos de Cascais, mas quem sai à noite num after-hours percebe que «essa juventude perdida» inclui todas as classes.

É como se houvesse um desígnio comum de hedonismo automático, de querer pisar os limites ou querer seguir uma moda de mau comportamento. E não deixa de ser curioso o filme chegar na altura em que se discute também o problema da segurança na noite com o caso da discoteca Urban Beach.

Fotografia Gustavo Bom





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Não compre produtos Nestlé!




A Nestlé removeu a cruz da imagem da capela
nas embalagens dos iogurtes Grego.

A Nestlé está a alinhar com a islamização da Europa.

Boicote a Nestlé!

Não compre nenhuns produtos Nestlé ! ! !



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O multiculturalismo está dividindo o Ocidente



Giulio Meotti, Gatestone, 24 de Outubro de 2017

O multiculturalismo está gerando a «partilha», a ruptura das sociedades europeias. – Alexandre Mendel, autor do novo livro Partilha: Crónica da Secessão Islamista em França.
  • À luz do multiculturalismo europeu, as mulheres muçulmanas perderam inúmeros direitos que deveriam ter na Europa. O multiculturalismo está, a bem da verdade, desprezado na legalização de uma sociedade paralela, fundamentada na Sharia, que se baseia na rejeição dos valores ocidentais, acima de tudo no tocante à igualdade e à liberdade.
  • O establishment europeu fechou os olhos enquanto os supremacistas muçulmanos violavam os direitos do seu próprio povo.

As estatísticas oficiais da União Europeia sobre o terrorismo são impressionantes:

«Em 2016 foram registados um total de 142 ataques terroristas, entre fracassados, frustrados e finalizados em oito Estados Membros da UE. Mais de metade (76) deles foram registados pelo Reino Unido. A França registou 23, Itália 17, Espanha 10, Grécia 6, Alemanha 5, Bélgica 4 e Holanda 1. Nos ataques morreram 142 pessoas e 379 ficaram feridas na UE. No mesmo ano 1 002 pessoas foram presas por crimes relacionados com o terrorismo».

Todos estes países procuraram integrar as comunidades muçulmanas e todos se viram num beco sem saída. «Enquanto este estado de coisas continuar, o fracasso da integração representará uma ameaça letal para a Europa», salientou o Wall Street Journal na esteira de um atentado suicida que matou 22 pessoas em Manchester. Segundo o novo livro Partition: Chronique de la sécession islamiste en France («Partilha: Crónica da Secessão Islamista na França») da autoria do repórter francês Alexandre Mendel, o multiculturalismo está gerando rupturas nas sociedades europeias.

Esta conjuntura também está criando infindáveis ondas de ataques terroristas. Em Agosto passado, num único dia, os islamistas assassinaram 20 europeus em Barcelona e na Finlândia. Um mês depois massacraram duas meninas em Marselha e em Birmingham um menino xiita foi espancado com requintes de crueldade. Estes são os frutos fatais do multiculturalismo da Europa. É a ideologia europeia mais romântica e sedutora desde o comunismo.

Há uma «cadeia cada vez mais constante de 'comunidades suspensas' aninhadas dentro das nações ocidentais», salientou recentemente o historiador americano Andrew Michta.

«O surgimento destes enclaves, reforçado pelas políticas da elite do multiculturalismo, políticas de identidade de grupos e a desconstrução da tradição ocidental, contribuíram para a ruptura das nações da Europa Ocidental».

Apenas vinte minutos separam Marais, o elegante bairro de Paris, onde estava localizada a redacção da revista Charlie Hebdo e Gennevilliers, um subúrbio que abriga 10 mil muçulmanos, onde os irmãos Kouachi, que assassinaram a tiros os cartunistas da Charlie Hebdo, nasceram e foram criados. Em Birmingham há um subúrbio chamado Sparkbrook, de onde sai um décimo dos jihadistas da Inglaterra. Todas as cidades de maior importância da Europa abrigam enclaves onde proliferam o apartheid islâmico.

Lá burcas e barbas têm um significado. A maneira de se vestir sempre simbolizou lealdade a um estilo de vida, uma civilização. Quando Mustafa Kemal Atatürk aboliu o califado na Turquia, proibiu que os homens deixassem crescer as barbas e que as mulheres usassem véus. A proliferação de símbolos islâmicos nos guetos da Europa demarcam a separação destes subúrbios. O novo líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), Henry Bolton, disse recentemente que a Grã-Bretanha encontra-se «enterrada» pelo Islão e «inundada» pelo multiculturalismo.

De acordo com o ex-arcebispo de Canterbury, Lord Carey of Clifton o «multiculturalismo», «desencadeou assassinatos em nome da honra, circuncisão genital feminina e o estabelecimento da Lei Islâmica (Sharia) em bolsões das cidades em todo o Reino Unido». À luz do multiculturalismo europeu, as mulheres muçulmanas perderam inúmeros direitos que deveriam ter na Europa. Defrontam-se com «crimes em nome da honra» por se recusarem a usar o véu islâmico, por se vestirem com roupas ocidentais, por se encontrarem com amigos cristãos, por se converterem para uma outra religião, por pedirem o divórcio, por se recusarem a serem espancadas e por serem demasiadamente «independentes».

É uma das grandes ironias do multiculturalismo: cinco membros europeus da OTAN estão a lutar no Afeganistão contra os talibãs que escravizam as mulheres, ao mesmo tempo em que são escravizadas nos nossos próprios guetos na Europa.

Sob o regime do multiculturalismo, a poligamia avançou juntamente com a mutilação genital feminina (500 mil casos em toda a Europa). O multiculturalismo está, a bem da verdade, desprezado na legalização de uma sociedade paralela, fundamentada na Sharia, que se baseia na rejeição dos valores ocidentais, acima de tudo no tocante à igualdade e à liberdade.

Além disso, o medo de «ofender» as minorias islâmicas acabou criando uma espécie de cegueira autoimposta. Foi o que aconteceu em Rotherham, uma cidade de 117 mil habitantes situada no norte da Inglaterra, onde o estupro em massa e o aliciamento de pelo menos 1 400 crianças por «gangues de estupradores de origem paquistanesa» fluiu à vontade por vários anos.

Sob o multiculturalismo, o anti-semitismo também disparou, principalmente em França. O semanário francês L'Express acaba de dedicar uma edição especial exclusiva ao «novo mal-estar dos judeus franceses»-

Todos os recentes terramotos políticos ocorridos na Europa representam as consequências do fracasso do multiculturalismo. Conforme salienta o historiador britânico Niall Ferguson: a principal razão da vitória do Brexit foi a imigração.

«Muitos no Reino Unido olhavam para a crise dos refugiados na Europa e pensavam: se eles adquirirem um passaporte alemão, virão para a Grã-Bretanha e não teremos condições de fazer nada para detê-los. Esta foi a motivação central dos votantes e, legitimamente, porque os alemães abriram as portas a um enorme influxo do mundo muçulmano. Visto a partir do Reino Unido, a reacção foi: pera aí, e se eles vierem para cá?»

Na Holanda, a ascensão de Geert Wilders é a consequência directa do assassinato do cineasta Theo van Gogh por um islamista holandês e a reacção ao multiculturalismo que se seguiu. Na França, a ascensão política de Marine Le Pen coincidiu com dois anos de ataques terroristas de grandes proporções nos quais 230 cidadãos franceses foram assassinados.

Além disso, o extraordinário sucesso do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) nas recentes eleições gerais é consequência da decisão fatal da chanceler Angela Merkel de abrir as portas para mais de um milhão de refugiados e migrantes. Beatrix von Storch, uma das líderes do AfD, salientou à BBC que «não há lugar para o Islão na Alemanha». Explicou que uma coisa é permitir que os muçulmanos pratiquem a fé islâmica em recintos fechados, outra é acomodar o Islão político, que almeja mudar a democracia e a sociedade alemã.

O establishment europeu fechou os olhos enquanto os supremacistas muçulmanos violavam os direitos do seu próprio povo. Muitos islamistas então bateram às portas da Europa cada vez com mais determinação. O multiculturalismo mata e desestabiliza a Europa somente como o nazismo e o comunismo foram capazes fazê-lo.





segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Adolescentes alcoólicos



À noite, na zona de Santos, em Lisboa, as ruas enchem-se de adolescentes e copos. Cerveja, vinho, sangria e misturas. Alguns acabam alcoolizados no hospital. É assim de norte a sul do país: todos os meses há miúdos a chegarem às urgências com intoxicações ou comas alcoólicos. Os mais novos não têm ainda 13 anos.

Catarina Guerreiro, Expresso, 15 de Outubro de 2017

No passeio, puseram-se os dez numa roda. Cada um pegou no pequeno copo com líquido escuro, ergueram-nos ao centro, brindaram à mais nova de entre eles e beberam a mistura num gole. Era o ritual de um grupo de primos e aquele estava a ser o baptismo de J., de 14 anos. Dentro do copo havia C 24, uma mistura de vodca preto e limoncello. Sempre que um deles completa 14 anos é assim: reúnem-se num bar e iniciam-no no mundo dos shots — dose de bebida alcoólica que se consome num só gole. Eram 00h28 da madrugada do último sábado quando J. engoliu em menos de um segundo o seu primeiro shot. Gritaram o nome dela e incentivaram-na. «Bebe, bebe...»

Estavam no Largo de Santos, em Lisboa, onde à noite se juntam muitos adolescentes. A uns metros de distância, a Praceta na Avenida D. Carlos I estava cada vez mais cheia e animada com miúdos, de idades entre os 13 e os 17 anos. Desde as 22h30 que começaram a chegar. Na mão tinham copos de cerveja (uns mais pequenos, outros de meio litro) que compravam nos bares do lado oposto da rua. Alguns seguravam garrafas de vinho e outros ainda garrafas de vidro de um litro de cerveja — «litrosas», como lhes chamam. Apareceram três miúdas com uma garrafa de plástico, de rótulo cor de laranja e imagens de fruta. «É sangria de vodca branco», desvendaram. E continuaram: «Comprámos no indiano a caminho daqui.» A maioria tinha 15 e 16 anos e, por isso, estão totalmente proibidos de comprar álcool pela lei. Mas conseguem sempre: ou não lhes pedem identificação ou tratam de contornar o problema. «Arranjamos forma. Nem que seja pedir a um maior de idade que o faça.»

Um grupo de seis rapazes divertia-se a meter-se com as raparigas. Um deles exibia, orgulhoso, o charuto que trouxera de casa. Outro corria sorridente enquanto ia buscar mais uma cerveja a um dos bares, onde a afluência era tanta que parecia difícil chegar ao balcão. Mas conseguiu. E saiu de lá com a sua quinta cerveja. «Já estou a ficar acelerado», avisava. Uns estavam mais calmos, outros não escondiam que gostam de beber sem limites. «Outro dia, bebi sozinho quase uma garrafa de whisky. Apanhei uma bebedeira e quando cheguei a casa vomitei imenso», contava um dos miúdos, com ar de «menino bem». Os adolescentes estavam em grupos, espalhados pela praceta. Ouviam-se gargalhadas, gritos. «Vou buscar um vodca», anunciava alto uma miúda que não parecia ter mais de 15 anos. O amigo, ao lado, com um jarro de vidro de sangria na mão, começava a dar sinais do que já bebera. Cambaleava e, ao tentar pegar no telemóvel de uma amiga, deixou-o cair ao chão. Já passava da meia-noite e meia. O espaço, com bancos de madeira corridos e umas mesas de madeira com cadeiras, estava cada vez mais concorrido. Parecia o recreio de uma escola secundária. Mas em vez de ser de dia, era de noite; e em vez de livros, traziam nas mãos copos com bebidas alcoólicas. Alguns fumavam. Ali não havia restrições. «Às vezes, há uns que abusam muito e acabam a noite no chão», descrevia A, de 16 anos, que, apontando para a berma da estrada, onde alguns se encontravam sentados, explicava: «Já vi aqui alguns em coma alcoólico.»

O número de adolescentes com excesso de consumo de álcool que dão entrada no Hospital Dona Estefânia, para onde são enviadas as crianças apanhadas naquela zona, confirmam o cenário: todos os meses entram pela porta da urgência pediátrica, pelo menos, cinco adolescentes com intoxicações alcoólicas agudas e alguns em coma alcoólico. Em 2016, o hospital registou 65 casos, e nos dois anos anteriores mais 132 (60 em 2015 e 72 em 2014). A maioria tinha 15 anos, mas dois deles eram crianças de 11 anos. E 39% tinham mais de 2 gramas de álcool por litro de sangue (g/l). O caso mais grave foi o de um adolescente que registou 3,84 g/l e que esteve em coma alcoólico. Há situações ocasionais, mas outras são mais preocupantes e têm de ser seguidas de perto, explica a pedopsiquiatra Neide Urbano, do Hospital Dona Estefânia, a médica que fez o levantamento sobre as ocorrências com esta substância, tema a que se tem dedicado. «O álcool atinge o sistema nervoso central e, em miúdos vulneráveis do ponto de vista da saúde mental, potencia comportamentos como a agressividade, a automutilação, a depressão e às vezes é o gatilho para quem tem tendências suicidas», garante a médica.

DOZE ANOS, 1,56 GRAMAS DE ÁLCOOL

O fenómeno repete-se por todo o país. Na urgência pediátrica do Hospital de São João, no Porto, entre 2011 e 2015 deram entrada 346 adolescentes com álcool a mais. «E 8% tinham antecedentes de consumo», nota o director da urgência, Luís Almeida Santos, para quem a situação «é muito preocupante». «Estamos a falar de crianças bêbadas», alerta, explicando que nesta análise verificou-se que os adolescentes de 12 anos que deram entrada na urgência tinham em média 1,56 g/l de álcool no sangue. Já a média dos de 13 anos foi de 1,46 g/l; a dos miúdos com 14 anos situou-se em 1,79 g/l; a dos de 15 ficou pelos 1,64 g/l; a dos 16 anos atingiu os 1,65 g/l; e a dos de 17 anos posicionou-se nos 1,68 g/l. Valores muito elevados, avisam os médicos. Basta ver que os condutores com menos de três anos de carta são multados quando têm mais de 0,2 g/l e todos os outros a partir de 0,50 g/l. E quem revelar 1,2 g/l é acusado de um crime.

«Houve miúdos que chegaram com taxas entre os 0,5 e os 3,8 g/l de álcool», recorda o director da urgência, acrescentando que 40% foram situações com alguma ou muita gravidade, «com alterações do estado de consciência e sujeitos a exame neurológico». Almeida Santos está agora a analisar os processos clínicos do ano passado para concluir as estatísticas de 2016. Mas o fenómeno não parece estar a diminuir. Aliás, 2015 foi o ano em que o São João registou mais casos: 87 num ano. Ou seja, todos os meses, sete ou mais adolescentes deram entrada alcoolizados.

O mesmo se passa no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, onde em 2016 apareceram «20 adolescentes com alteração do estado de consciência», refere Hugo Tavares, de 40 anos, pediatra e responsável pela consulta do adolescente, para onde são encaminhados os miúdos que surgem nas urgências com excesso de álcool. Para medir a gravidade da situação e o estado de coma, os médicos usam uma escala chamada de Glasgow: através da observação das capacidades ocular, verbal e motora são atribuídos pontos. Quinze é considerado normal; a partir de 11 começa o estado de coma superficial, 8 significa que se perdeu reflexos vitais — como o de se impedir que o vómito vá para os pulmões; e com valor de 3 significa um coma profundo.

Oferta. À noite, em Lisboa, como um pouco por todo o país, não faltam miúdos de copo na mão.
Podem ter cerveja (uns mais pequenos, outros de meio litro), sangria, bebidas brancas.
Outros optam por garrafas de vinho e outros ainda garrafas de vidro de um litro de cerveja
— «litrosas», como lhes chamam
.
Hugo Tavares concluiu um trabalho sobre os episódios que chegaram à urgência entre 2008 e 2016, para apresentar no Congresso Nacional de Pediatria, que se realiza no final deste mês. A maioria surgiu nas urgências à noite, ao fim de semana, ou em épocas de festivais e festas populares. A média de taxa de alcoolemia foi de 1,584 g/l. Mas um rapaz chegou com 2,74 g/l. Entre os embriagados havia uma criança de nove anos. As cenas vividas nas urgências revelam os perigos em que os adolescentes se colocam. Ao Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, chegou um miúdo, transportado pela polícia, que estava embriagado a dormir na estrada, «como se estivesse em casa», e deu entrada uma rapariga que bebeu álcool a mais e foi tomar banho ao mar. «Podia ter morrido afogada», nota Hugo Tavares, garantindo que muitos jovens estão a aderir ao binge drinking: «Ingerem grande quantidade de álcool de forma súbita. Três, cinco, até sete bebidas de uma só vez.» Uma tendência que, assegura, tem um enorme «impacto, porque leva a consumo de grande quantidade de álcool antes de terem tempo de começar a sentir os efeitos do álcool».

Foi provavelmente o que aconteceu a T., um rapaz de 16 anos que entrou em coma alcoólico. Estava com amigos numa feira em Santarém quando, a meio da noite, caiu e acabou internado no hospital. Bebeu sete cervejas e depois «empurrou tudo com 12 shots de absinto» e bebeu-os em pouco mais de 10 minutos. Não tardou até estar dentro de uma ambulância. Lembra-se de começar a ver tudo à roda, de ter momentos em que via tudo preto, de vomitar e de se sentir estranho. Mas a partir daí não se lembra de mais nada. Caiu, fez um traumatismo craniano e desmaiou. Foi levado para o Hospital de Santarém, onde os pais o foram buscar mais tarde. Ficou de castigo, apanhou um susto, mas não o suficiente para deixar de beber. Mas, para muitos, garante Hugo Tavares, passar por uma intoxicação destas é uma lição. O problema, diz, é que se cria uma falta de confiança entre os pais e filhos que às vezes é difícil recuperar. «Por isso estas consultas de adolescentes são importantes, pois também ajudam os pais.»

Naquela madrugada de sábado em Santos, no centro de Lisboa, ninguém parece preocupado com os riscos do que está a fazer. «Nós controlamos bem a bebida», diz M., de 15 anos, enquanto dá mais um golo na sua garrafa de plástico cheia de sangria. Nas escolas é raro ouvirem falar dos perigos do álcool, contam.

NAS MÃOS DA POLÍCIA

«É um grave problema de saúde pública. Mas a forma como estamos a passar a informação não dá. Assim não vamos lá», diz Rui Tato Marinho, hepatologista e autor de vários estudos sobre os perigos do álcool para a saúde. «O consumo excessivo está ligado a mais de 100 doenças», garante, dando o exemplo de cirroses alcoólicas, cancros, infertilidade. «E há riscos de morte súbita — que já vi acontecer no Hospital de Santa Maria — e de asfixia pelo vómito», avisa, aproveitando para recordar um estudo da Universidade de Boston, onde se conclui que quem começa a beber com menos de 14 anos tem cerca de 50% de probabilidade de ficar dependente mais tarde. «A única hipótese é restringir mais o consumo», defende Tato Marinho, notando que a. lei não está a ser eficaz.

É também essa ineficácia que a subcomissária da 1.ª Divisão da PSP, Aurora Dantier, de 52 anos, admite testemunhar nas operações que faz durante a noite no Bairro Alto e em Santos, exactamente nos bares ao pé da Praceta D. Carlos I. Por estas zonas encontra regularmente cenas degradantes: menores a caírem de bêbados e a vomitarem, alguns em coma alcoólico; taxistas que não sabem o que fazer a adolescentes embriagadas que não conseguem explicar onde vivem. E, por vezes, chegou a ficar estupefacta quando lhe apareceram pais, a quem ela telefonou para irem buscar os filhos, completamente embriagados. «Não se mudam mentalidades com decretos», diz Aurora Dantier. A subcomissária costuma fazer operações de vigilância de menores que estão na noite sem supervisão de adultos e é acompanhada por técnicas da comissão de protecção de menores, que com ela integram o projecto Sem Rótulos, para ajudar a prevenir situações de maior perigo. É comum a subcomissária entrar num bar e fazer na rua um perímetro de segurança. «Só deixo os adolescentes irem embora quando um adulto o for buscar.» Além disso, notifica por escrito os pais de todos os menores que forem encontrados a beber, como manda o artigo 7.º da Lei 50/2013, que define a venda e o consumo de bebidas alcoólicas. Na última operação que liderou, estavam 20 ou 30 miúdos nessa situação.

P. de 16 anos, já esteve algumas vezes no sítio errado à hora errada e apanhou as operações da subcomissária. «Fazem uma espécie de quadrado e ficamos ali retidos até os nossos pais nos irem buscar.» Na madrugada do último sábado não houve acções policiais em Santos. Por isso, à medida que as horas corriam, o som das garrafas de vidro partidas no chão aumentava. Já passava da uma da manhã e se alguns ainda se comportavam, outros já davam sinais claros do que tinham bebido. E atravessavam a estrada a correr, a rir e a gritar, sem olhar para carros que passavam e sem noção de que podiam ser atropelados. É essa falta de avaliação do risco, dizem os especialistas, um dos perigos do excesso de consumo. «Com o álcool, eles têm comportamentos de risco no sexo, na condução, na agressividade», nota Helena Fonseca, pediatra, responsável pela consulta do adolescente no Hospital de Santa Maria e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. «O álcool é o inimigo número 1», avisa.

Ao Hospital de Viseu, por exemplo, já chegou um rapaz de 17 anos em estado grave por causa de um acidente de mota, resultado do seu estado de embriaguez. E outro entrou, numa madrugada, nas urgências a convulsionar. «Temos de estar muito atentos porque nestes casos há risco de hipoglicemia», descreve Alzira Ferrão, de 58 anos, directora do serviço de pediatria do Hospital de Viseu, onde aparecem também casos de adolescentes muito novos. Não há muito tempo, um casal foi ao hospital com o filho de 10 anos a cambalear. Estava de férias e teve acesso a bebidas alcoólicas através de amigos. O consumo que é feito pelos adolescentes preocupa-a e o hospital tem protocolos com as escolas da zona, onde a sua equipa costuma ir uma vez por semana falar com os alunos. Além disso, fazem sessões de formação nos estabelecimentos de ensino e no próprio hospital, para professores, pais e estudantes. «Tentamos mostrar-lhes que o álcool é tóxico e afecta as células.» Por isso, num dos filmes passam a imagem «de um neurónio a ser regado com gotas de álcool e a atrofiar».

Da sua experiência, consegue perceber que grande parte dos casos são ocasionais e ficam internados menos de 24 horas, mas outros são mais complexos. «Já me disseram que bebem para esquecer.» Alzira Ferrão quer fazer um levantamento dos casos que entraram nos últimos anos nas urgências para comparar a situação com a que está descrita no último estudo feito no hospital de Viseu, que avaliou 74 casos entre 2006 e 2010. A taxa média de álcool foi de 1,78 g/l e 51% tinham consumido shots. Houve registo de escoriações, traumatismos e casos mais problemáticos, como uma fractura do osso frontal, que pode deixar sequelas. Não é assim tão raro, ocorrem acidentes graves.

No Centro Hospitalar de Setúbal, o pediatra José Freixo não esquece o que sucedeu a um rapaz de 16 anos que apareceu alcoolizado e com ataques epiléticos, e que teve de ser operado ao cérebro. O médico dá consultas de adolescentes no hospital, mas lamenta que metade não apareça. São reencaminhados pelos médicos que os atendem na urgência. Joana Cachão, de 29 anos, é interna na especialidade de pediatria neste hospital e já teve nas mãos algumas situações. «Em regra, são intoxicações leves e fazemos hidratação e aquecimento», explica. Há uns tempos, ela e outras médicas fizeram um estudo sobre o tema: analisaram os processos clínicos dos 99 adolescentes que chegaram com excesso de álcool, entre Julho de 2011 e Julho de 2015. Desde então, já atendeu alguns.

O último foi um rapaz de 16 anos que apareceu embriagado e a vomitar sem parar. Ficou a descansar e a avó foi buscá-lo perto das seis da manhã. Sabia que o neto tinha ido sair e beber uns copos, mas nunca pensou que acabasse assim. Foi também com surpresa que os pais de uma estudante chegaram recentemente ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para irem buscar a filha, que ali estava deitada numa cama com intoxicação alcoólica, fruto dos festejos das praxes. Tinha bebido sangria a mais. «Tu?», perguntaram, incrédulos, os pais quando chegaram ao pé dela, na enfermaria da urgência pediátrica. Foram ajudados pelo psicólogo que todos os dias passa pelas salas da urgência e que, entre outros casos, auxilia pais e crianças a lidar com os problemas que resultam destas situações. «Os miúdos acham que desiludiram os pais», explica Gabriela Araújo e Sá, directora da urgência pediátrica do Hospital de Santa Maria, onde todos os meses chega um adolescente com intoxicação alcoólica aguda.

Para estes casos, o serviço tem um protocolo de actuação estabelecido, refere, por seu lado, Celeste Barreto, directora do Serviço de Pediatria, que define os exames a pedir, os passos a seguir e os sinais a observar. Um adolescente que apresente 0,5 a 1 g/l tem alterações da coordenação e desinibição; entre 1 e 1,50 revela desequilíbrio, entre 1,5 e 2, mostra letargia e dificuldade em estar sentado, com 3 entra em coma e com 4 a 7 corre risco de depressão respiratória. Uma actuação que segue as regras impostas em Julho passado por uma orientação que a Direcção-Geral de Saúde enviou para os hospitais, onde explica que estas intoxicações são um grave problema de saúde e impõe normas de procedimento.

«SABE A ÁLCOOL ETÍLICO»

Alheios a todas estas regras, naquela noite os miúdos continuavam a divertir-se em Santos. Entravam e saíam dos bares. São 01h20 quando J, de 14 anos, e os primos que a baptizaram continuam no ritual. Entraram noutro bar e beberam todos um shot, desta vez cor-de-rosa. Entretanto, em grupos, dezenas de adolescentes dirigiam-se para a zona das discotecas na Avenida 24 de Julho. «Eh pá, o meu pai disse-me para eu não beber», comenta uma adolescente com os amigos, enquanto dá um gole no copo que tem na mão. Não seguiu o pedido do pai: está embriagada e deita-se no chão da avenida. A um canto, um pouco atrás, uma outra adolescente, de 16 anos, vomita para poder continuar a noite, enquanto uma amiga aguarda pacientemente ao seu lado. Sentados no chão e num círculo, vários miúdos jogam à roleta com a garrafa e vão dando beijos uns aos outros. Num bar ali perto nota-se uma correria de entra e sai. «Vai lá buscar sete shots para nós», pede uma miúda ao rapaz do grupo. Bebem cada um o seu, num gole. «Eh pá, isto sabe mesmo a álcool etílico.»

É natural, explica Luís Patrício, psiquiatra. «O álcool das bebidas é igual ao da farmácia, etanol, que é um químico neurotóxico», explica o médico que se tem dedicado ao projecto «Mala da Prevenção», através do qual tenta alertar para a grave realidade do consumo de álcool por menores. Em vídeos que costuma divulgar, tenta passar uma simples mensagem: «Até 0,5 g/l vem a euforia; com 0,5 a um grama chegam as perdas de memória, de atenção e de juízo; entre 1 e os 3 g/l começa a diminuição da marcha, da visão, e da fala; com 3 a 5 g/l vem a falta de reflexos; e com mais de 5 g/l vem a morte».

Os miúdos não fazem ideia, garante. Alguns são até novos demais. R está com amigos numa fila para a discoteca, mas nenhum, admitem tem 16 anos, a idade permitida para entrar. «Temos bilhete de identidade falsos», acabam por confessar. Na realidade têm 14 anos, desvenda R, enquanto aponta para um outro grupo: «Aqueles ali são de 2004.» Ou seja, têm 13 anos. Segundo um estudo de 2015, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), coordenado por Fernanda Feijão, o álcool continua a ser a substância mais consumida pelos adolescentes das escolas públicas. E 31% dos alunos com 13 anos já experimentaram álcool, especialmente cervejas e misturas. Num inquérito de 2015, feito em 35 países europeus por um grupo de trabalho de especialistas (Espad — The European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs), 47% admitiram que consumiram álcool aos 13 anos e um em cada 12 estudantes europeus contou que teve uma intoxicação alcoólica com essa idade.

Começam a beber para serem aceites pelos amigos, funcionando muitas vezes como uma espécie de ritual, acredita Teresa Goldschmidt, pedopsiquiatra do Santa Maria, notando que em muitas famílias é aceite com naturalidade que os adolescentes bebam álcool. Nem todos os casos acontecem de noite, alguns dão-se no horário da escola. No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, Sofia Costa Lima, directora da urgência pediátrica, conta que já aparecerem miúdas embriagadas à tarde. E, em Gaia, o pediatra António Vinhas lembra-se do caso de uma adolescente que foi de visita escolar ao parque biológico e acabou a ser levada para o hospital por uma professora, com álcool a mais.

Com o andar da noite, na Avenida 24 de Julho sente-se por vezes o cheiro a haxixe, que vem dos charros que os miúdos acendem e partilham. Pelo meio, fazem directos para o Instagram, tiram selfies. A noite corre. Eram 03h17 quando o funcionário de um dos bares mais concorridos junto à Praceta D. Carlos I varria o chão, cheio de copos de plástico consumidos daquela noite. S. tem 31 anos e passou por um grave problema de álcool. Teve de se submeter a um tratamento e hoje diz que se sente bem e consegue beber com moderação. Mas viveu momentos complicados quando foi ao médico com uma depressão e descobriu que tinha problemas com o álcool. Ao olhar para trás, recorda-se bem como tudo começou. «Tinha 15 anos e comecei a beber shots.»